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Por um país doador

Entusiasta da cultura norte-americana, Custódio Pereira acredita que IES do Brasil ignoram o poder da cultura da doação, e pior: ainda viram as costas para ex-alunos e eventuais parceiros O economista e professor Custódio Pereira é um nome conhecido no setor de educação superior brasileira. Atualmente é diretor-geral das Faculdades Integradas Rio Branco, de São Paulo. Mas sua ligação com a educação privada começou antes. Custódio ocupou por vários anos a presidência da Universidade Presbiteriana Mackenzie, também da capital paulista. Entre outras coisas, foi o principal comandante e responsável pela reestruturação financeira da instituição, que chegou a enfrentar momentos críticos por conta de uma séria crise financeira. A trajetória em gerir instituições de ensino superior concedeu a Custódio Pereira grande experiência e capacidade para diagnosticar problemas comuns ao setor. Nesta entrevista, ele dedica atenção especial ao tema sustentabilidade e captação de recursos por instituições de ensino superior. Recentemente, transformou o assunto em livro.

Lançado em agosto, Sustentabilidade e Captação de Recursos na Educação Superior no Brasil (editoras Saraiva e Mackenzie) procura mostrar e ensinar como pode ser introduzida no Brasil a cultura da doação, forte característica do modelo norte-americano de educação. Somente para citar, nos Estados Unidos, em 2000, cerca de 130 instituições de ensino superior conseguiram captar juntas mais de US$ 14 bilhões via doações. Custódio acredita que o Brasil perde muito ao não centrar esforços e introduzir esse hábito no país. Segundo ele, a prática da doação existe e funciona em várias partes do mundo. Os brasileiros, então, estariam indo na contramão do que ocorre pelo planeta.

Ensino Superior - Por que sustentabilidade e captação de recursos ainda são novidades para as instituições de ensino brasileiras?

Custódio Pereira - Por incrível que pareça, é uma novidade para a grande maioria das instituições, escolas e universidades. Aqui no Brasil apenas umas cinco ou seis instituições trabalham efetivamente esse assunto. Mas não é o que ocorre no mundo. Os Estados Unidos fazem isso há quase 500 anos. O maior exemplo é Harvard, que já faz isso há alguns séculos. Esse conhecimento não ficou preso só aos EUA. Oxford e Cambridge, no Reino Unido, foram à Harvard para aprender como os americanos faziam. Hoje, eles fazem isso com qualidade. Aprenderam a fazer e não faziam. Na Ásia, a Universidade de Hong Kong hoje faz captação de recursos, obtém além da sustentabilidade e aproximação junto à sociedade. Detalhe: eles também não faziam isso antes. O México também. Por que não é feito no Brasil? É uma pergunta que eu poderia responder: é que o Brasil tem feito algumas poucas vezes, mas de maneira isolada, quando a instituição, de uma maneira ou de outra, teve o conhecimento ou conviveu com essa realidade de alguma maneira.

O senhor conhece exemplos de campanhas recentes de captação de recursos?

Eu posso dar dois exemplos. Um é do México, onde o presidente da Universidade Monte Rey conhece bem o sistema de captação de recursos e a profissionalização que existe nos Estados Unidos. Por isso, resolveu enviar aos EUA duas pessoas para fazerem cursos e participar de organizações internacionais de capitalização de cursos e a participarem de eventos e de fóruns internacionais. Eles voltaram para o México e montaram na universidade uma área de desenvolvimento. Há cinco anos, eles captaram na primeira campanha US$ 27 milhões. Detalhe: eles são uma universidade particular. Agora, estão na segunda campanha e já captaram US$ 15 milhões. Porque existem técnicas, existem formas. Para fazer isso, em primeiro lugar você tem que trabalhar o seu maior patrimônio que são os antigos alunos. Muitas universidades dão bolsas aos alunos e depois que ele se forma ninguém sabe onde ele está, o que faz.

E um dia, quem sabe, depois de anos e décadas, que ele é o presidente de uma multinacional, a universidade tenta estabelecer um contato, mas não tem vínculos. Nunca foi feita essa aproximação. Então, tem de ser começado um relacionamento com o aluno, por meio de esportes, de atividades de aproximação durante o período letivo, e criar um espírito de corpo da instituição. É importante manter contato com o ex-aluno, estar próximo dele, porque se você está próximo, você sabe quem ele é, o que faz e tem amizade dele e ele estará pronto a colaborar, ou financeiramente, ou melhor, como voluntário, acreditando na causa que a instituição está precisando. Agora imagina quantas pessoas estudaram em universidades públicas. Hoje eles não retribuem, porque eles não foram preparados, não foram acompanhados, não existem as associações de antigos alunos - elas não são fortes, não são trabalhadas - e nós não temos deles o retorno institucional.

E no Brasil...

Um caso importante, no Brasil, aconteceu com o Mackenzie, que é uma instituição protestante em um país católico, as pessoas a consideravam estrangeira, achavam que era norte-americana. Pois bem, foram eles que fizeram a primeira campanha de captação de recursos. A cidade de São Paulo foi mobilizada no início dos anos de 1950. E eles captaram US$ 12 milhões, em valores atuais. E com isso eles construíram o auditório Rui Barbosa, prédios, e depois fizeram outra campanha que também deu certo. O presidente do Mackenzie na época tinha cultura americana. Ele sabia como fazer, acreditava no assunto e, por isso, conseguiu mobilizar pessoas e a sociedade. Por não saber que era impossível, ele foi lá e fez. Hoje, nós não fazemos porque dizemos que é impossível e não procuramos conhecer o que existe lá fora, aprender com eles e tropicalizar, customizar e aplicar no nosso país.

Apesar da experiência do Mackenzie que mobilizou a maior cidade do Brasil, será que ficou na mente das instituições privadas brasileiras, justamente o oposto? A mentalidade das IES não é a de apenas preparar o aluno para que ele pegue o diploma e vá para mercado buscar uma oportunidade?

No livro eu analiso exatamente isso. Em primeiro lugar, analiso como é que a cultura norte-americana e suas universidades trabalham esse assunto, como a mentalidade foi criada, a visão de educação foi desenvolvida, que é o compromisso da sociedade com a educação. Então isso foi trabalhado e hoje é muito forte na sociedade. Depois eu falo um pouco como eles constituíram a associação de antigos alunos, como criaram o espírito de corpo. Aí, passo a fazer uma correlação de como aconteceu no Mackenzie e o que o Mackenzie fez para poder ter sucesso, por que ele tinha um espírito de corpo, por causa do sistema norte-americano de atletismo, de associação de antigos alunos. Por causa dessa visão, já havia um espírito de corpo suficiente na instituição que permitiu desenvolver uma campanha em que os alunos foram voluntários. Eu tenho testemunhos no livro de pessoas que acreditavam na campanha. O Mackenzie fazia um levantamento de quem poderia doar e via quais eram as pessoas que melhor poderiam representar a instituição. Os professores, diretores, o presidente, e os alunos se mobilizaram efetivamente. Eles fizeram direito, pois quando lançaram a campanha, já tinham obtido doações, porque eles também sabiam que as pessoas só se aliam a campanhas se elas souberem que ela será bem-sucedida. Se o Brasil não tivesse tido nem um caso, poderia dizer que o Brasil tem uma cultura tão hermética, tão blindada que é o único país do mundo que não pode ter isso.

O brasileiro por natureza é muito desconfiado. Uma campanha de doação precisa seguir alguns critérios para que o público se convença. Que critérios e que tipo de instituição pode implementar uma campanha semelhante a que o Mackenzie fez?

Um dos princípios é o seguinte, as pessoas não doam porque nós não pedimos, ou se pedimos, não sabemos pedir.

Depois, precisamos deixar muito claro e dar segurança ao doador de que somos uma instituição séria e que vamos aplicar corretamente o dinheiro. Vamos apresentar relatórios, e ele vai poder ver o resultado dos recursos e, para isso, deve ser feita uma auditoria séria, uma prestação de contas. As pessoas querem saber onde o dinheiro está sendo aplicado. Somente assim é que as instituições vão receber doações. Mas isso é um processo a ser desenvolvido, quer dizer, não começa do zero. Precisa ter critérios, como um projeto muito bem definido que aponte como, quando e tudo o que a sua empresa ou instituição precisa saber para ter segurança de que a instituição vai aplicar corretamente os recursos. Dessa forma é possível, sim, conseguir doações. O Mackenzie fez uma campanha agora em 2004 e cerca de US$ 2,5 milhões foram captados. Quem participou? Alunos, antigos alunos, funcionários, professores, motoristas, empresas e não havia nenhuma vantagem fiscal para a maioria dos doadores.

A legislação brasileira ajuda quem quer doar?

A nossa legislação não só não ajuda como atrapalha. Porque se você quiser fazer uma doação, conforme a organização, ela não pode receber. Nas universidades públicas é isso o que ocorre. Em muitos casos, o desejo de doar é atrapalhado pela legislação. É tão complicado que você pode não conseguir efetivar a sua doação. É muito complicado receber uma doação. Segundo, a sua doação é taxada, quem recebe paga um imposto pela doação. E quem doa não recebe nenhum incentivo. Por isso, costumo dizer que precisamos de uma Lei Rouanet para a educação, que incentive a contribuição, o investimento, a doação. Mas a legislação não é apropriada, o país caminha em uma direção de que a nossa cultura é a do não doador. Nos Estados Unidos, é o oposto: o país está cheio de instituições que são privadas e que recebem doações.

O objetivo então é disseminar e inserir essa cultura na realidade brasileira?

O objetivo é levantar o assunto, de forma que a sociedade possa conhecer melhor que isso é possível e como isso pode ser feito. Pelo lado da instituição, o que ela pode fazer e, pelo lado do governo, o que pode ser feito também. Estou absolutamente certo de que, havendo o apoio do governo e da sociedade civil e o conhecimento, será um grande passo em uma retomada do investimento da sociedade civil na educação do nosso país. Isso já aconteceu na Ásia, na Europa, no México e nos EUA, e o Brasil com o caso do Mackenzie mostra que é melhor do que os outros. Porque, sem ter conhecimento anterior, conseguiu fazer o que fez com um pequeno exercício de captação de recurso.

É possível hoje uma instituição de ensino, seja ela privada ou pública, sobreviver exclusivamente do pagamento de mensalidades, ou da verba estadual, federal ou municipal?

Com as mensalidades que cobramos no Brasil, a equação não fecha. Se você cobrar baixas mensalidades, se não tiver outra fonte de financiamento, ou você vai ter classes cheias, em que há dificuldade no processo de ensino, ou você vai ter que ter mensalidades muito altas, em que as classes menos favorecidas não vão ter dinheiro para pagar, ou não se vai poder investir em laboratórios e não vai poder investir em pesquisas. Essa é a crise atual. E as instituições filantrópicas e as públicas, por exemplo, são aquelas que mais estão enfrentando dificuldades financeiras. A capacidade de investimento do governo, do setor público, é limitada. Não há condições de atender a todas as necessidades, do ensino de qualidade à pesquisa. É preciso de outras fontes de investimento. O governo não vai conseguir. Não adianta apenas abrir faculdades, universidades, elas precisam de sustentabilidade. Então por que não podemos pegar uma doação ou desenvolver esse tipo de programa? Quando eu falo para os outros países que trabalham com programas desse tipo, principalmente os americanos, que os nossos alunos de instituições não pagam nada independentemente da posição social e que nós não trabalhamos com eles, para que eles possam de alguma maneira contribuir para a universidade e fazer doações, eles não acreditam e acham que eu estou mentindo.

Essa mudança de cultura não passa também por uma mudança de gestão? O senhor não acha que há necessidade de se profissionalizar o comando das IES brasileiras?

Sem dúvida, acho que já passamos do tempo. Hoje enfrentamos as conseqüências de não termos conseguido antever e realizar ajustes necessários. Não soubemos tomar providências técnicas e profissionais para resolver assuntos como receita, caixa e com isso fomos nos afundando, acreditando nos resultados do passado. Isso não é mais possível, porque a concorrência é muito grande. Estou absolutamente certo de que temos desprezado no mínimo oportunidades de fortalecer a imagem da nossa instituição. Muitas instituições têm se profissionalizado e eu creio que a gestão no nosso país para a educação tem focos diferentes dos EUA, por exemplo. O principal papel do reitor é o relacionamento, desenvolvimento, captação de pesquisas, de forma que ela tenha um posicionamento no mercado, seja querida, respeitada. E isso é feito através de relacionamentos.

O ensino brasileiro tem dedicado especial atenção aos cursos de curta duração. Cada vez mais aumenta a massa de estudantes que permanece menos tempo nas escolas. Esse tipo de fenômeno não dificulta ainda mais a implementação de uma cultura de aproximação do aluno, de criação de elos e de transformação da instituição de ensino, seja ela pública ou privada, em um patrimônio social?

Essa colocação tem vários aspectos. Primeiro cursos profissionalizantes, técnicos, são muito importantes para o país. O Brasil teve um grande trabalho nisso por meio de organizações que procuraram capacitar pessoas para atividades de nível técnico. Mas, na nossa cultura, só é bom quem fez a universidade. Só tem status quem fez universidade. Essa mentalidade faz com que ele depois, nestes cursos rápidos, procure formas mais específicas e mais focadas no conteúdo, ou seja, ele volta para a universidade. O fato de o curso ser mais barato não faz com que ele goste mais ou menos da instituição. Depende da capacidade da instituição de desenvolver um trabalho com esses antigos alunos.

O que falta é criar redes de relacionamento.


Fonte: Gustavo Acioli


 
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